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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

"Trem Azul": 30 anos do último show de Elis Regina

Entrevistas, fotos e vídeos recontam a última turnê de uma das maiores cantoras do Brasil

Selo Elis Regina - 30 anos de Trem Azul (Foto: reprodução)
Há exatos 30 anos, Elis Regina (1945-1982) subia ao palco pela última vez. Foi com o show Trem Azul, dirigido por Fernando Faro. Elis começou sua carreira cantando, ainda menina, em estações de rádio em Porto Alegre, sua cidade natal. O sucesso veio com “Arrastão”, defendida por Elis no I Festival de Música Popular Brasileira, em 1965. Foi assim, pela televisão, que o Brasil conheceu a voz de Elis, seus gestos firmes e, por vezes, exagerados. Logo em seguida, aos 20 anos de idade, ela passou a comandar um programa, o Fino da Bossa, líder de audiência. Não era só voz. Era imagem. Usava suas expressões e seu corpo para cantar.
Em “Trem Azul” – obviamente não sabendo que esse seria o último show da cantora –, o diretor Fernando Faro transformou Elis novamente em uma estrela de TV. “O azul eram as linhas da TV à noite, na casa das pessoas”, diz Faro. Era como se fechasse um ciclo. Uma carreira. Com essa inspiração, o show alterava momentos de drama, como em “Se eu quiser falar com Deus”, e de pura descontração, como no pout pourri de sucessos da época intercalados como vinhetas de programas de televisão.
A estreia de “Trem Azul” foi em São Paulo, no dia 22 de julho, no Canecão São Paulo. Depois seguiu para Curitiba e Porto Alegre. No final de outubro, chegou ao Rio de Janeiro, onde cumpriu temporada no teatro João Caetano. Em 11 de dezembro de 1981, Elis subiu pela última vez ao palco. Foi para uma única apresentação no Rio Palace (atual Hotel Sofitel, em Copacabana).
Neste especial, ÉPOCA resgata a história dessa temporada por meio de entrevistas, depoimentos, fotos e relíquias do show. Tudo serve para reconstruir “Trem Azul” e entender o momento pelo qual Elis passava na carreira e na sua vida pessoal. Uma homenagem à cantora que, por conta de seu talento e seu legado, resiste ao tempo e ainda é aclamada como uma das maiores cantoras do país.
(Clique na imagem para acessar o especial)

Elis Regina, Dom Helder e uma carta para um preso político


Em 1978, quando levou seu show "Transversal do Tempo" para Recife, Elis participou de um ato público promovido por Dom Helder Câmara e "driblou" a polícia para homenagear o líder estudantil Edival Nunes, o Cajá

Elis Regina e Dom Helder Câmara (Foto: Acervo pessoal Leda Alves)
 
 
“Elis era temperamental. Não levava desaforo para casa”. Essas duas frases viraram clichês para definir a personalidade de Elis Regina (1945-1982). Alguns viam nisso a força que ela sempre impôs para a sua carreira. Outros enxergam suas atitudes com reservas. O certo é que Elis, cuja morte completa 30 anos nesta quinta-feira (19), comprava não só suas brigas, como as dos outros também.
Um dos casos mais famosos em que Elis mostrou seu temperamento ocorreu em 1976, quando a cantora Rita Lee foi presa acusada de porte de maconha. Quando soube do fato, Elis decidiu ir ao Presídio do Hipódromo, na região central de São Paulo, para visitar a companheira de profissão. Em plena ditadura militar, fez um escândalo, pediu para ver a cantora e exigiu que um médico examinasse Rita, que estava grávida.
Mas nem só famosos contavam com o apoio de Elis. Um outro episódio, esquecido e revelado recentemente pela revista Continente, ocorreu no Recife, em 1978 , durante o governo de Ernesto Geisel. Elis estava na cidade para apresentações do show "Transversal do Tempo", que tinha um roteiro com viés político e de forte crítica social. Lá, quis se encontrar com Dom Helder Câmara (1909 –1999), à época arcebispo de Olinda e Recife, conhecido por sua atuação contra as violações de direitos humanos no Brasil, em especial durante a ditadura.
Quem aproximou Elis e Dom Helder foi a atriz e especialista em cultura popular Leda Alves. Elis a procurou por indicação de Frei Betto. Por coincidência, neste mesmo dia, à noite, haveria uma missa em favor da libertação do líder estudantil Edval Nunes da Silva, o Cajá, que havia sido preso em maio de 1978, na capital pernambucana, acusado de tentar reorganizar o Partido Comunista Revolucionário. Elis decidiu que participaria do ato religioso. E assim o fez. Subiu ao altar da Matriz de São José e entoou os cânticos da celebração. “Estávamos em plena ditadura e, mesmo assim, ela não se intimidou”, diz Leda, que se tornou amiga de Elis. Depois da missa, a Elis foi à sacristia conhecer Dom Helder. “Ela estava muito interessada no trabalho que ele fazia em defesa dos direitos humanos”, afirma Leda.
No dia do primeiro show da temporada que faria em Recife, Elis decidiu dedicar o show ao estudante Edival Nunes da Silva, o Cajá. A homenagem rendeu a Elis uma repreensão da polícia local, que ameaçou impedir suas apresentações seguintes. No segundo show, Elis arrumou um jeito de falar o apelido do líder estudantil. Segundo o próprio Cajá, o que foi lhe contado depois é que Elis entrou no palco com a banda desfalcada do baterista. Alegando que não poderia começar o show sem um de seus músicos, perguntou por ele. Alguém apontou o músico sentando em uma das poltronas do Teatro Santa Isabel. Elis, marota, teria dito. ‘Vem cá, já. Não posso começar o espetáculo sem você’. “O público logo entendeu o recado e aplaudiu o ato de Elis”, diz Cajá, que hoje é sociólogo e tem 61 anos.
Antes de deixar o Recife, Elis ainda tentou visitar o estudante na prisão. Não conseguiu. Optou por escrever uma carta. Na correspondência, escrita em um papel timbrado do hotel onde Elis se hospedou, o Othon Palace, Elis dizia para Cajá não esmorecer e continuar a lutar pela liberdade. Para Cajá, o ato de Elis foi ‘iluminado’. “Depois de Elis, outros artistas tentaram me visitar, como os atores Bruna Lombardi e Cláudio Cavalcanti”, afirma. “Ela tinha um compromisso com o que há de mais bonito no ser humano: a liberdade”, diz Cajá.
Cerca de três meses após sua saída da prisão, em junho de 1979, Elis voltou ao Recife para uma apresentação e tentou marcar um almoço com Cajá. Ele, que havia acabado de se tornar pai, não pode comparecer, mas disse que, posteriormente, iria a São Paulo se encontrar com a cantora. O encontro dos dois nunca aconteceu . Em 19 de janeiro de 1982, o sociólogo, em meio a uma reunião da União Nacional dos Estudantes, foi surpreendido pela notícia da morte de Elis. No próximo mês de março, quando Elis completaria mais um aniversário, ele pretende realizar um show com artistas locais em homenagem à amiga.

João Marcello Boscoli: “A voz da Elis salvou minha vida”

Filho mais velho de Elis Regina, João Marcello lembra do lado “mãezona” da cantora


        
 
Elis regina 39 (Foto: Arquivo / Agência O Globo)
 
 
Em meio a shows, entrevistas, gravações de programas de rádio e televisão, Elis Regina (1945-1982) encontrava tempo para levantar cedo – algo terrível para qualquer artista – e preparar o café da mãe dos filhos (João Marcello, Pedro Mariano e Maria Rita), levá-los para a escola, deixar um almoço pronto. Mesmo que a cantora tivesse auxiliares dentro de casa, gostava de ter essa atenção com os filhos. É justamente essa lembrança que o produtor João Marcello Boscoli faz questão de ressaltar sobre a mãe, que morreu quando ele tinha 11 anos de idade, em 1982

30 anos sem Elis... Fotos

    A cantora antes do estouro de "Arrastão"


    Nas gravações do disco "Samba eu canto assim", que tinha músicas como "João Valentão" e "Menino das laranjas"


    Na década de 60, fazendo pose para matéria de uma revista


    Elis e seu primeiro marido, o compositor Ronaldo Bôscoli (1967)
    Elis em sua casa no Rio de Janeiro na década de 60





    A explosão no palco (1969)








    A cantora gravando um especial para a TV Globo, em 1972



    Nos anos de 1972 e 1973, Elis saiu em shows pelo país no projeto "Circuito Universitário"

    30 anos sem Elis Regina

    No dia em que se completam 30 anos da morte da cantora Elis Regina, ÉPOCA publica uma seleção de fotografias raras da cantora. Elis, que nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945, começou a cantar ainda criança em programas de rádios da capital gaúcha. O sucesso veio com “Arrastão”, em 1965, música defendida por ela no I Festival de MPB. Elis fez discos e shows históricos, como a série "Dois na Bossa", “Elis & Tom”, “Falso Brilhante”, “Saudade do Brasil” e “Trem Azul”. Ao longo da carreira, cantou em diversos países, como Japão, França, Itália, Portugal, Alemanha, Suíça e México. Morreu aos 36 anos, no dia 19 de janeiro de 1982.
    Elis Regina, ainda menina, quando cantava em rádio. Foi nessa época que ela gravou seus primeiros discos